Produtos de cannabis, CBD, kratom e substâncias relacionadas estão entre as categorias mais restritivas do Google Shopping - e a principal diferença em relação a outras suspensões é que a solução raramente depende de uma correção técnica simples. O Google trata drogas recreativas como categoria de alto risco de forma consistente em todos os mercados, independentemente da legalidade local. Um produto de CBD com autorização ANVISA pode ser igualmente reprovado que um produto de THC recreativo no mecanismo de detecção automatizado. Se você acabou de receber esta reprovação, o caminho mais provável não é a correção e resubmissão - é avaliar com honestidade se há base regulatória que justifique um recurso formal e, na maioria dos casos, remover os produtos permanentemente do feed Google.
O que o Google entende por “drogas recreativas”
A política de substâncias perigosas do Google proíbe a promoção de produtos que facilitam o consumo recreativo de substâncias controladas ou o uso de drogas de abuso. Na prática, isso abrange uma lista ampla de categorias:
- Cannabis e derivados: flores, resinas, extratos, edibles e qualquer produto que contenha tetrahidrocanabinol (THC) acima dos limites permitidos pela política
- CBD (canabidiol): incluindo produtos de bem-estar, óleos, cápsulas e cremes - mesmo onde o CBD é legal localmente
- Kratom (Mitragyna speciosa): pó, cápsulas, extratos e bebidas
- Canabinoides sintéticos: Spice, K2 e variantes quimicamente similares
- Outras substâncias: khat, salvia divinorum, cogumelos com psilocibina, e substâncias listadas nas Convenções da ONU sobre Drogas quando comercializadas para fins de intoxicação
O Google aplica esta política globalmente e de forma independente das legislações locais. Para produtos de CBD, a política é especialmente restritiva: mesmo em jurisdições onde o canabidiol é aprovado para uso medicinal ou como suplemento, o Google exige que o anunciante obtenha certificação específica do Google para veicular esses anúncios - processo disponível apenas em mercados selecionados, com critérios rigorosos e processo de candidatura separado. O Brasil não figura atualmente entre os mercados com certificação disponível para publicidade de CBD no Google Shopping.
Por que isso gera reprovação em lojas Shopify no Brasil
A integração do Shopify com o Google Shopping ocorre via canal de vendas nativo (Google & YouTube app), que sincroniza o catálogo com o GMC de forma automática. Essa sincronização é onde o problema começa - qualquer atributo do produto que contenha termos monitorados pela política é sinalizado sem intervenção humana.
O sistema automatizado do Google varre todos os atributos enviados pelo feed:
- Título (
title): campo de maior peso; termos como “CBD”, “canabidiol”, “cannabis” ou “cânhamo” disparam a política imediatamente - Descrição (
description): menções a efeitos relaxantes, propriedades canabinoides ou nomes de substâncias são suficientes para sinalização - Tipo de produto (
product_type): categorias como “Suplementos de CBD” ou “Extratos de Cannabis” bloqueiam o produto na validação de feed - Rótulos personalizados (
custom_label): se você usa labels para segmentação de campanhas com termos relacionados, esses também são varridos - URL da imagem (
image_link): embora menos frequente, embalagens com iconografia explícita de cannabis foram relatadas como sinal adicional em alguns casos
Um ponto crítico para o mercado brasileiro: a ANVISA autorizou, via RDC 327/2019, o uso de produtos à base de Cannabis para fins medicinais e de pesquisa, incluindo alguns com canabidiol. Essa autorização tem valor regulatório no Brasil, mas o Google não delega a avaliação de conformidade para agências nacionais - sua política é independente das regulações locais. Produtos autorizados pela ANVISA serão reprovados da mesma forma se os atributos do feed contiverem os termos monitorados.
Um risco adicional específico para Shopify: ao publicar produtos em coleções automaticamente sincronizadas com o feed Google, qualquer item adicionado à coleção é enviado ao GMC sem revisão manual. Se a loja mantém uma coleção como “Saúde e Bem-Estar” que inclui tanto vitaminas quanto produtos de CBD, todos os produtos da coleção ficam sob escrutínio aumentado - mesmo os que não têm relação com a categoria proibida.
Como identificar o problema na sua loja
Para confirmar o diagnóstico e entender o escopo exato da reprovação, siga este procedimento:
- No GMC: acesse Produtos → Diagnósticos. Filtre por status “Reprovado” e localize o motivo “Substâncias perigosas” ou “Drogas recreativas”. Registre quais produtos foram afetados e se a conta como um todo está ativa ou suspensa - essa distinção é fundamental.
- No Shopify: vá em Canal de vendas → Google e verifique o status de sincronização de cada produto. Produtos com erro de política aparecem com status de sincronização “Rejeitado” ou “Com problemas”.
- Via Merchant API: se você consulta a API diretamente, use
products.listcom filtro pordestinations[0].status = DISAPPROVEDe verifiquedestinations[0].disapprovalReasonspara confirmar que o código de motivo corresponde à política de substâncias. - Verificação de atributos: abra o produto reprovado no GMC e clique em “Ver detalhe do produto”. Identifique quais atributos específicos estão marcados como problemáticos. Isso define onde exatamente a reprovação foi acionada e informa a estratégia de correção.
Se apenas produtos específicos foram reprovados (e não a conta inteira), você está em uma situação de gerenciamento mais controlável. Se a conta foi suspensa, o processo de recurso é mais complexo e mais urgente.
Passo a passo para tratar a reprovação
- Pause imediatamente a sincronização dos produtos afetados. No Shopify, acesse Canal de vendas → Google e desative a sincronização dos SKUs problemáticos. Isso evita resubmissões automáticas que pioram o histórico de conformidade da conta.
- Documente o estado atual antes de qualquer mudança. Registre os atributos exatos de cada produto afetado - título, descrição, tipo de produto, URL - e o diagnóstico do GMC. Esses dados são necessários para o recurso e para auditoria interna.
- Avalie honestamente a categoria. Se os produtos são cannabis, kratom ou canabinoides sintéticos, não existe caminho de resubmissão - remova e encerre. Se são produtos de CBD para uso medicinal com autorização ANVISA, existe base formal para recurso, mas a probabilidade de aprovação pelo Google é baixa. Se os produtos foram inadvertidamente rotulados com termos relacionados sem que o produto em si seja proibido (ex.: “óleo vegetal de cânhamo industrial” para uso cosmético), há uma chance real de correção de atributos e nova aprovação.
- Para produtos mal rotulados: corrija título, descrição e tipo de produto no Shopify, removendo qualquer menção a cannabis, CBD ou substâncias relacionadas. Aguarde a ressincronização com o GMC e solicite revisão manual no painel de diagnósticos.
- Para produtos genuinamente na categoria: decida entre remover permanentemente do feed Google ou submeter um recurso formal com documentação regulatória completa. Prepare-se para o resultado mais provável: negativa definitiva.
- Monitore o status da conta diariamente. Após as correções, verifique se o número de produtos reprovados nesta categoria caiu para zero. Qualquer produto adicional reprovado pelo mesmo motivo aumenta o risco de escalonamento para suspensão de conta.
O que incluir no recurso ao GMC
Se você decidir submeter um recurso - e existe base regulatória para isso - o conteúdo deve ser técnico, objetivo e documentado. Recursos vagos ou evasivos raramente progridem na revisão humana:
- Descrição precisa do produto: concentração exata de CBD (em mg/ml ou %), concentração de THC (deve ser ≤ 0,2% para produtos medicinais autorizados pela RDC 327/2019), forma farmacêutica, e indicação terapêutica específica
- Documentação ANVISA: número de registro ou notificação do produto, comprovação de que a empresa está habilitada a comercializar o produto, e referência direta à RDC 327/2019
- Laudos analíticos: de laboratório credenciado, comprovando a concentração de THC dentro dos limites legais - preferencialmente com data recente
- Argumento de política: referencie o mecanismo de certificação do Google para mercados selecionados e solicite formalmente avaliação de enquadramento do produto dentro deste processo
- Declaração de uso: explicite que o produto tem destinação medicinal, não recreativa, e que a comercialização segue integralmente as normas da ANVISA
Não use linguagem evasiva nem minimize o que o produto é. Um recurso direto e honesto tem mais chance de análise cuidadosa do que uma argumentação que tenta contornar a natureza do produto. O revisor humano do Google tem acesso ao histórico da conta - transparência é a melhor estratégia.
Casos extremos e quando escalar
Produtos de THC recreativo, cannabis em flor ou canabinoides sintéticos: não existe caminho de recurso. Remova os produtos do feed e não tente resubmeter. O GMC não possui mecanismo de certificação para estas categorias em nenhum mercado.
Kratom: igualmente bloqueado globalmente sem caminho de recurso. O Google não aceita argumentos de legalidade local para esta substância.
Suspensão de conta (não apenas reprovação de produto): o processo de recurso é diferente e mais exigente. Acesse o painel de suspensão no GMC e siga as instruções específicas. Suspensões de conta por substâncias perigosas raramente são revertidas sem um plano de conformidade detalhado, auditoria completa do catálogo e demonstração de que as práticas que geraram a suspensão foram eliminadas.
Aplicação do DSA (Digital Services Act): para contas com operação na União Europeia, o DSA adiciona obrigações de transparência sobre publicidade de produtos regulados. Se você vende também para o mercado europeu, o recurso ao Google pode precisar incluir declarações adicionais de conformidade com o regulamento europeu, especialmente no que diz respeito a categorias de produtos de saúde.
Quando buscar apoio especializado: se a conta foi suspensa, se você tem mais de 50 produtos afetados, ou se a operação abrange múltiplos mercados com regulações distintas, o processo de conformidade excede o que pode ser gerenciado manualmente via painel GMC. Avalie o suporte de um profissional especializado em compliance de Google Shopping. Mesmo assim, entenda que categorias hard-blocked têm probabilidade muito baixa de reversão - especialistas podem otimizar o processo, não garantir o resultado.
Perguntas frequentes
Perguntas frequentes
- CBD tem autorização da ANVISA no Brasil - por que meu produto ainda foi reprovado?
- A autorização da ANVISA (RDC 327/2019) é válida para fins regulatórios brasileiros, mas não vincula as políticas do Google. O sistema automatizado do Google aplica sua política globalmente com base em palavras-chave nos atributos do produto - título, descrição, tipo de produto. Mesmo produtos legalizados localmente são reprovados se os atributos contiverem termos como 'CBD', 'canabidiol' ou 'cannabis'. A conformidade regulatória local é necessária, mas não suficiente para aprovação no Google Shopping. O Brasil não figura atualmente entre os mercados certificados pelo Google para publicidade de CBD.
- Posso criar uma subconta separada no GMC para vender produtos de CBD?
- Não. Criar subcontas para contornar suspensões ou reprovações de política é explicitamente proibido. Se detectado, o Google pode suspender permanentemente todas as contas associadas ao mesmo domínio, CNPJ ou informações de pagamento. Não tente esta abordagem em hipótese alguma - o risco é perder acesso irreversível ao Google Shopping para toda a operação.
- O recurso ao GMC é possível para drogas recreativas?
- Em princípio, sim - o Google permite recursos formais. Na prática, a taxa de aprovação para cannabis, CBD e substâncias relacionadas é extremamente baixa, mesmo com documentação ANVISA completa. Se submeter recurso, inclua a autorização regulatória, descrição precisa do produto (concentração de THC/CBD, uso medicinal versus recreativo) e demonstre conformidade com a política atual do Google. Prepare-se para a possibilidade de negativa definitiva sem nova chance de reapreciação imediata.
- Quais palavras nos atributos do produto disparam a reprovação automaticamente?
- Termos como 'CBD', 'canabidiol', 'cannabis', 'THC', 'hemp oil' sem qualificação clara, 'kratom', 'mitragyna', 'khat' e nomes de canabinoides sintéticos disparam a política. Termos adjacentes como 'relaxante canabinoide' ou 'bem-estar com extrato de cânhamo' também podem ser sinalizados dependendo do contexto do catálogo. O mecanismo de detecção é baseado em ML e evolui com cada atualização de política - não existe lista pública de palavras bloqueadas.
- Minha conta inteira foi suspensa ou apenas produtos foram reprovados?
- Depende do histórico da conta e do volume de violações. Reprovações isoladas afetam apenas os produtos específicos; a conta permanece ativa para o restante do catálogo. Se o Google detectar um padrão sistemático - múltiplas resubmissões de produtos proibidos ou tentativas de contornar a política - pode escalar para suspensão de conta. No GMC, verifique em 'Diagnósticos' se o status é 'Produto reprovado' ou 'Conta suspensa': a distinção determina o caminho e a urgência do recurso.
- Kratom pode ser incluído no feed Google Shopping no Brasil?
- Não. O Google proíbe kratom globalmente em sua política de substâncias perigosas, independentemente do status regulatório local. No Brasil, o kratom não possui aprovação ANVISA como alimento, suplemento ou medicamento. Qualquer produto de kratom será reprovado no GMC e não existe caminho de recurso baseado em legalidade local para esta substância específica.
Fontes e referências
Fontes oficiais citadas
- Google Merchant Center: Política de substâncias perigosas e proibidas https://support.google.com/merchants/answer/6150003
- Google Ads: Política de substâncias perigosas https://support.google.com/adspolicy/answer/6014299
- ANVISA - Cannabis para fins medicinais e de pesquisa https://www.gov.br/anvisa/pt-br/assuntos/cannabis
Checklist de recurso
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